segunda-feira, 11 de maio de 2009

Eu acredito em Duendes



Esse ano, na Páscoa, minha filha resolveu perguntar se o coelhinho da páscoa existia mesmo. Pensei em como dizer a ela "a verdade", sem cortar seus sonhos de criança. Então com todo cuidado, disse que achava que na verdade o coelhinho da páscoa eram os pais e amigos das crianças que deixavam os ovinhos escondidos. Ela mais que depressa me fez lembrar de um dia quando ela acordou e viu as marcas das patas no chão por toda a casa."...eram marcas iguais as patinhas e todas molhadas de chocolate mamãe..."
Resumindo acabei por dizer que realmente o coelhinho da páscoa existia. E não menti.
Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do dente, Duendes...sim, eles de uma certa forma existem.
O momento foi tão mágico naquele natal em que ela viu apenas um vulto vermelho logo depois de ouvir a campainha e viu a bicicleta no final da escada; ou as marcas das patas do coelho pela casa, embora ao acordar meus dedos ainda estivessem doces do nescau. Como dizer que eles não existem. Ela sentiu, ela viveu. Eu participei daquele momento mágico. Sou testemunha ocular e sensitiva de que ela estava correta, e que eu não a enganava e sim participava e sentia junto. Menti? Não, não menti.
Segundo uma tal Teoria da Mentira: "o objetivo da mentira é nos impedir de distinguir o verdadeiro do falso. É confundir, é iludir, é enganar e, assim, nos levar a tomar decisões erradas (para nós), mas que beneficiam quem criou e espalhou a mentira”.Portanto, se não foi esse meu objetivo, não menti.
O que me remete a pensar em todas as vezes que me achei mentirosa ou enganada. Menti mesmo quando coloquei a moeda embaixo do travesseiro? Mentiram pra mim, ou acreditavam naquilo? A teoria da mentira não é assim tão simples.
Lá vou eu me recitar: Sinto, logo existo. E completo. Se amo, sinto, não minto...vivo junto a mesma verdade, a nossa verdade.
Eu posso ter espalhado marcas pela casa, posso ter me vestido de papai noel, posso ter dito que era a Babi mexendo a cortina enquanto ela chorava de um pesadelo achando ser um fantasma. Mas não aceito dizer que menti, fantasiei sim, mas o objetivo não era enganá-la e sim fazê-la feliz.
Cuidado, não use essa "teoria" pra desculpar suas mentiras... Ela ainda não esta comprovada. Ela é apenas sentimento. Estou apenas fantasiando a mentira...
Mentiras existem sim. Já as usei em meu benefício e nem me lembro se foram descobertas.
Um dia a Duda vai saber que não eram marcas do coelho pela casa, mas o sorriso dela foi verdadeiro. Isso nunca mais vai ser apagado. Eu era o próprio coelho, portanto o coelho da páscoa existiu sim. Logo, eu posso acreditar em Duendes. Afinal, eles estavam no quintal da minha casa quando eu era criança. Eu vi...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Voltando de Marrakesh


Faz pouco tempo, estava lendo um blog que acompanho e admiro e eis que me deparo com uma frase que me perturbou por semanas: " Triste é um pai que dá o exemplo de resignação, indiferença emocional e ausência de envolvimento." Fabricio Carpinejar tem o dom de dar tapas e nem sempre vem acompanhados de pelicas. Este sem dúvida me deixou roxa por semanas. Achava-me a mãezona protegendo minha cria de possíveis relacionamentos fadados ao fracasso e outros que até tinham um prognóstico favorável, porém eis que me vejo assutada com a possibilidade de até então ter passado a imagem de uma mãe fria, indiferente e auto-suficiente em matéria de amor. Não pretendo me justificar com quem me observa, porém preciso tentar achar uma justificativa pra esse "medo transmissível". Pensei que pelo fato de minha filha não ter lembranças de um pai e querer tanto um, pudesse se frustrar em criar expectativas em cima de um possível candidato. E como admitir a ela que eu não tinha intenção de achar-lhe um pai? Sim espero por alguém, um dia, ou por uns dias, mas não seria eu injusta em privar essa oportunidade a minha filha? Como conseguir um pai sem ter um marido? Porque as pessoas precisam tanto do convencional? Me irrito muitas vezes com perguntas sem maldade expressas...Costumo responder que já fiz meu papel na sociedade, já me formei, já casei, já tive filho...Pronto. Mas sempre há espaço: Já casou novamente? Não quer mais filhos? Sinceramente não sei bem o que quero, mas sei o que não quero.
Não quero ser cobrada se gosto de sexo e sei separar isso de amor. Gosto sim, e muito.
Não quero ser indagada se não pretendo mais casar. Simplesmente não planejo... Não encontro um casamento no Angeloni...senão parcelaria no cartão e devolveria caso não fosse o que procurava.
Não acredito no pra sempre, mas isso não me tira o direito de sonhar e tão pouco me torna uma pessoa fria.
Amo minha filha sim incondicionalmente, e isto não discuto, mas isso não me faz querer, por hora, outro filho.
Não consigo deixar uma boa roda de samba pelo homem mais lindo a me olhar, isso não quer dizer que não podemos nos ver depois do Boa Noite.
Faço o que gosto e não deixarei de fazer por relacionamentos, posso apenas negociar. Nunca abandonar.
Agora, não quero de forma alguma passar, mesmo que sublinarmente, a mensagem de que sou indiferente emocionalmente. Não sou. Amo muito, me apaixono sempre, me dedico a quem amo, apenas não sei ainda dividir isso com minha filha, e quiçá com o outro.
Depois que li Fabrício ousei chorar na frente de minha filha, ela me deu colo, ficou em silêncio e chorou também. Foi o silêncio mais confortante que recebi. Nosso silêncio tem som. Diria que uma sinfonia iluminada...



"Esse papo meu tá qualquer coisa e você tá pra lá de Teerã...”.



terça-feira, 17 de março de 2009

Ode ao gato


Os animais foram imperfeitos, compridos de rabo, tristes de cabeça. Pouco a pouco se foram compondo, fazendo-se paisagem, adquirindo pintas, graça, vôo. O gato, só o gato apareceu completo e orgulhoso: nasceu completamente terminado, anda sozinho e sabe o que quer.


O homem quer ser peixe e pássaro, a serpente quisera ter asas, o cachorro é um leão desorientado, o engenheiro quer ser poeta, a mosca estuda para andorinha, o poeta trata de imitar a mosca, mas o gato quer ser só gato e todo gato é gato do bigode ao rabo, do pressentimento à ratazana viva, da noite até os seus olhos de ouro.


Não há unidade como ele, não tem a lua nem a flor tal contextura: é uma coisa só como o sol ou o topázio, e a elástica linha em seu contorno firme e sutil é como a linha da proa de uma nave. Os seus olhos amarelos deixaram uma só ranhura para jogar as moedas da noite.


Oh pequeno imperador sem orbe, conquistador sem pátria, mínimo tigre de salão, nupcial sultão do céu das telhas eróticas, o vento do amor na imterpérie reclamas quando passas e pousas quatro pés delicados no solo, cheirando, desconfiando de todo o terrestre, porque tudo é imundo para o imaculado pé do gato.


Oh fera independente da casa, arrogante vestígio da noite, preguiçoso, ginástico e alheio, profundissimo gato, polícia secreta dos quartos, insignia de um desaparecido veludo, certamente não há enigma na tua maneira, talvez não sejas mistério, todo o mundo sabe de ti e pertence ao habitante menos misterioso, talvez todos acreditem, todos se acreditem donos, proprietários, tios de gatos, companheiros, colegas, díscipulos ou amigos do seu gato.


Eu não. Eu não subscrevo. Eu não conheço o gato. Tudo sei, a vida e seu arquipélago, o mar e a cidade incalculável, a botânica, o gineceu com os seus extrávios, o pôr e o menos da matemática, os funis vulcânicos do mundo, a casaca irreal do crocodilo, a bondade ignorada do bombeiro, o atavismo azul do sacerdote, mas não posso decifrar um gato. Minha razão resvalou na sua indiferença, os seus olhos tem números de ouro.


(Navegaciones y Regresos, 1959)
Pablo Neruda

sexta-feira, 13 de março de 2009

Eu e o Lucas

Faz algumas semanas que eu entrei em comum acordo com a Duda para adquirirmos um animal de estimação. Já havia tentado com peixes, mas todos os três morreram. Pensei numa tartaruga, um rato, chinchila, tudo menos aves claro, mas ela queria um que pudesse tocar, brincar, acariciar, e eu claro um que eu pudesse me incomodar o menos possível e colocar numa gaiola quando viajasse.Sempre tive cachorros, gosto muito deles, mas como moro em "apertamento" e passo pouco tempo em casa acho triste ter que deixá-lo sozinho, seria muito egoísmo. A Babi, a poodle que foi minha preparação para um filho de verdade, hoje esta sob os cuidados do meu pai. Enfim, pensamos, conversamos e concordamos em adotar um gato. Não fazia idéia de como cuidar de um, mas sabia por amigos que eles davam menos trabalho e que se viravam muito bem sozinhos.Lá fui eu atrás dos gatos. Coincidentemente três pessoas tinham gatas com uma ninhada de dar inveja a coelhos. Poderia escolher. A Duda bateu os olhos num branquinho, de olhos azuis, praticamente gêmeo de outro, isso pra mim, porque no outro dia quando fomos buscar, ela viu os dois, pegou e disse: " É esse mãe, é esse, o de olhos azuis pequenos. Não o de olhos grandes." Pronto, ela já sabia até a diferença entre dois "iguaizinhos". Estava claro que era aquele o Lucas.

Claro que embora o gato seja da Duda, eu fico a maior parte do tempo com ele. Sempre preferi os cachorros, só agora percebi o quanto da personalidade do gato encontro em mim:

  • O gato, quando bem amado, dedica ao seu dono um amor intenso e incondicional. O que devemos perceber é que, diferente do cão (que considera o dono o líder da "matilha"), o gato nos considera como mais um membro do seu rol de convivência. Sabendo respeitar esse fato, certamente teremos um companheiro para todos os minutos (por isso minhas amigas não devem ter ciúmes, amo todas....);
  • Os gatos apresentam menos problemas com o período noturno do que o cão, quando recém-chegados. Na grande maioria das vezes, dormem, se alimentam e/ou brincam tranqüilos;
  • Ao passo que o cão tem maior adaptação ("molda-se") ao modo de vida da casa, o gato procura exercer sua liberdade, seguindo seus instintos hormonais (viu amigas, não tenho cérebro masculino, e sim instinto felino...rs);
  • Os felinos formam uma sociedade (e um contexto social) bastante complexa. A adaptação deve seguir alguns princípios básicos, evitando-se assim que o gato torne-se não-manipulável. Um desses princípios é não querer impor educação ao gato: devemos mostrar o correto e "conquistar" a aceitação do animal; ele deve aceitar seguir o nosso procedimento. Querer impor algo a um felino é pedir para que ele faça o contrário (acho que ficou claro, não?) ;
  • Os felinos têm uma intermitência acentuada entre sono, alimentação e atividades. Respeite esses períodos;
  • Os gatos domésticos gostam de se alimentar várias vezes ao dia, sempre em pouca quantidade (pequena quantidade, viu Sandra?);
  • No quesito higiene, os felinos usam defecar e/ou urinar em local errado como forma de protesto (sem comentários...) ;
  • Os felinos são muito metódicos e não gostam de mudanças em sua rotina;
  • É extremamente importante para os gatos, socialmente falando, manter suas unhas afiadas(e pintadas, no meu caso);
  • Os gatos são caçadores naturais; contudo, mesmo que você tente humaniza-lo, nunca conseguirá anular esse comportamento (não é ruim isso, eu juro!) ;
  • Só se consegue a amizade do gato, quando seu dono lhe tratar com carinho. (then...so...).

Obrigada a Luigi Leonardo Mazzucco Albano pelo vasto conhecimento em gatos, onde precisei buscar fontes para escrever sobre algo que esta tão enraizado, e ao mesmo tempo, tão obscuro. E obrigada a minha mais nova amiga Fran, que é amante e mãe dedicada de três lindos gatos carinhosamente acolhidos.

Se o Hinduísmo esta realmente certo, acho que já fui um gato...só pode...rs.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Idiota e a moeda

Conta-se que numa cidade do interior um grupo de pessoas se divertia com o idiota da aldeia. Um pobre coitado, de pouca inteligência, vivia de pequenos biscates e esmolas. Diariamente eles chamavam o idiota ao bar onde se reuniam e ofereciam a ele a escolha entre duas moedas: uma grande de 400 RÉIS e outra menor de 2.000 RÉIS. Ele sempre escolhia a maior e menos valiosa, o que era motivo de risos para todos.
Certo dia, um dos membros do grupo chamou-o e lhe perguntou se ainda não havia percebido que a moeda maior valia menos .
- Eu sei, respondeu o tolo. Ela vale cinco vezes menos, mas no dia que eu escolher a outra, a brincadeira acaba e não vou mais ganhar minha moeda.
Arnaldo Jabor

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Casa sem quintal


Essa montagem mostra o que aconteceu com o quintal que amava, ou melhor, ainda amo. Eu cresci. Ele não me parece mais tão gigante. Não tem mais viveiros, curral. Não tem mais as plantações de couve, nem a casa centralizada ao fundo. Não tem mais a Suli, a primeira cachorra. E graças a Deus não tem mais o galinheiro. O caminho que me levava pra casa ou para o galinheiro continua lá. As pequenas flores do mato ainda florescem e hoje é minha filha quem as colhe para mim. No lugar da casa cresceu uma enorme árvore, onde meu pai colocou um pequeno balanço pra Duda brincar. Amo essa árvore. O quintal é repleto de bananeiras onde meu pai adora exibir e colher as "diversas qualidades de bananas", como ele bem diz. Perguntam o porquê de não construir uma casa nesse quintal, afinal ainda é bastante grande e facilitaria muito a minha vida deixando a Duda perto com meus pais quando fosse trabalhar. Respondo que sempre penso nisso, que já planejei diversas vezes, que não tiraria a árvore, construiria ao lado. Mas temo. Não mais as galinhas, elas não estão mais lá, temo sim por esse terreno não pertencer somente a uma pessoa. Tem meus pais, meu tio e minha avó. E sempre podem surgir mais donos né? Afinal meu tio tem três filhas, de dois casamentos, e depois também não sou filha única. Não me sentiria segura em colocar minha casa num terreno que mais tarde podem brigar por ele. Acabei comprando um apartamento. Financiado claro, mas é só meu. Posso fazer o que bem quiser com ele, inclusive esta à venda. Quero um mais perto do quintal que não é meu, mas que minha filha possa brincar e colher flores pra mim, e poderei colocar na nossa casa sem quintal, apenas com um cachorrinho prometido num momento de fraqueza, mas que tem a nossa cara. Que nos acolhe, da segurança, e que mesmo com pouco espaço pra brincar, tem uma escada onde nos lambuzamos tomando picolé que não foi prêmio de suborno, e sim desejado ao ouvir o apito gostoso do picolezeiro passando. Corremos pro cofrinho. Catamos as moedas. Então sentamos as duas na escada, olhando pra fora, lambuzando as mãos e o chão com o picolé de cinqüenta centavos mais gostoso do mundo. Ela sabe que ali é nosso, que podemos visitar o vovô, mas que à noite voltaremos pra nossa pequena casa sem quintal, e que a qualquer momento nossa casa pode mudar, e quem sabe até ter um quintal ou um playground, talvez não tão gigante, e talvez tenhamos que compartilhar o parquinho com outras pessoas. Mas é a nossa casa. Só nossa. O quintal, o playground, isso a gente divide. Agora o gosto do picolé na escada da nossa casa...não, esse cada um sente o seu.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Pra não esquecer em 2009

Amor não se implora, não se pede não se espera...Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.
Há poesia em toda a criação divina. Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças acerca de suas ações.
Obrigada, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que abrem portas para uma vida melhor.
O amor... Ah, o amor...O amor quebra barreiras, une facções, destrói preconceitos,cura doenças...Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.E vive a vida mais alegremente...

Artur da Távola



Coisas que a vida ensina todos os dias, ou pelo menos deveria...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Nove de dezembro!

"Fono não fala: Comunica-se;
Fono não engole sapo: Deglute o bolo alimentar;
Fono não dá um jeitinho: Faz manobra de facilitação;
Fono não faz cara feia: Muda a expressão facial;
Fono não chora: Aumenta a secreção;
Fono não dá ataque: Tem distúrbio de conduta;
Fono não tem idéia: Tem plano terapêutico;
Fono não conclui: Faz relatório de avaliação;
Fono não se engana: Tem ato falho;
Fono não muda de interesse: Muda de estratégia;
Fono não ri: Faz mioterapia;
Fono não abraça: Faz estimulação corporal;
Fono não ouve: Produz ondas eletrofisiológicas;
Fono não solta a voz: Faz vibração de Pregas Vocais;
Fono não perde ar: Entra no ar de reserva;
Fono não escreve: Faz transcrição fonética;
Fono não lê: Tem consciência fonológica;
Fono não brinca, isso é terapia;
Fono não se despede: Dá alta parcial;
Fono não é fonoaudiólogo, é fono...."

Parabéns pelo nosso dia!!!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Filtro Solar ou Guarda-Chuva?


O mundo está estranho...
Sabemos que temos culpa, sabemos que tem nosso dedinho nessa lama toda, mas não fazemos muito além do que nos é conveniente...
Aquecimento Global. Não é moda o assunto não, é simplesmente o assunto. É fato.
"E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade, há tempos são os jovens que adoecem...", um verso perdido que cantavamos sem saber...
Santa Catarina está cinza, está triste, mas com uma paz mais que estranha no ar. Talvez pelo fato dessa chuva toda trazer um pouco de amor. Sim, doeu, dói. Mas esta ocorrendo um misto de sentimentos: desespero, esperança, inconformidade, solidariedade, tristeza, sorriso, compaixão.


Desde de criança vi minha mãe tirar as roupas de inverno, colocar em sacolas para guardarmos, pois o verão estava chegando. Tirávamos roupas para lavar e guardávamos o que não mais usaríamos por um bom tempo, pelo menos até a próxima estação de frio.
Esse ano tirei roupas cedo demais, achei que não ia mais usá-las, e de repente me vi novamente abrindo sacolas, puxando o que estava na parte alta do guarda roupa, onde não alcanço.
Lá vou eu: pega escada(minha companheira), puxa roupa, crise alérgica e quando menos se espera, estou lá, tendo que me proteger com aquele casaco preferido, mas que pensei que só o vestiria quando o frio chegasse novamente. Mas ei espera ai...o frio ainda não passou...
Tem dias de sol, tem dias de chuva, tens dias de sol com chuva...e como cantava no jardim de infância: "sol e chuva, casamento de viúva..."
Agora ao sair de casa tenho duas coisas sempre a mão: filtro solar e guarda-chuva. Não sabemos mais o que pode acontecer ao longo do dia. Joinville tem tido as quatro estações do ano num só dia. Talvez por isso a paz estranha que permeia a cidade.
Primavera, quem não gosta de flores? Até eu que tenho minhas manias, sinto falta delas. Verão, minha estação preferida, praia sempre. Outono, tenho muita simpatia por ela, me prepara para o inverno, o choque não é tão grande devido a esta estação. Inverno, confesso que é a estação que menos gosto. Detesto frio, não gosto de me entulhar de roupa, fora a bronquite que me ataca.
Mas as quatro estações num dia só, me trazem paz com uma energia que na maioria das vezes é benéfica. Porém, esse fenômeno, me deixa atenta para o fato que o mundo não é mais o mesmo, e eu, muito menos.
Foraseq continua na cabeceira da cama, meu médico disse que será um tratamento para todo o sempre. Mas na mesma cabeceira, esta meu Episol 30.
Resolvi novamente escolher as roupas, fazer a repescagem, mas dessa vez não foi pra subir uma divisória, empacotá-las , ou porque penso estar acabando ou começando alguma estação. Como nada está definido, e não sabemos o que vem por ai, optei por ser solidária. Tirei algumas peças, em uso ainda, mas que algumas pessoas estão precisando mais do que eu. Minha filha fez o mesmo. Tirou um vestido lindo, que eu amo, azul com flores, que ela ia ficar linda nesse verão. E ai começa a corrente do bem, e ai se explica o amor. Talvez ai esteja a paz no meio de tanta confusão.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Nada como um bom argumento.

- Mãe, brinca de lego comigo?
- Não Duda, a mamãe não gosta de brincar de lego.
- Ah mãe...brinca comigo, por favor!!!
- Filha, eu já disse, a mamãe não gosta de lego. Você tem que brincar com outra criança de lego.
- Por acaso tem mais alguma criança aqui???

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

E que venha a minha nova gramática...


"O Parlamento português aprovou o segundo protocolo modificado do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, o que encerra décadas de discussão sobre a questão”.
"As atualizações na ortografia brasileira estão dando o que falar. Algumas alterações são até difíceis de aceitar depois de tanto tempo na escola estudando hífens e acentos, de repente para certas palavras não existem mais”.
“A discussão sobre o Acordo dividiu a sociedade portuguesa: para muitos intelectuais, a decisão significa ceder a interesses do Brasil. Outros consideram uma estratégica em tempos de globalização”.

Metáforas à parte, minha vida também esta passando por uma adaptação, porém penso que o prazo para adequação a esta Nova Gramática não deva ser tão taxativo.Penso que nem sempre dei a devida atenção a pontuação em minha vida. Sou fã incondicional das famosas reticências, e totalmente receosa aos pontos finais. Esta seqüência de três pontos, sempre deixa coisas no ar, uma deliciosa sensação de que algo esta por vir, ou algo que ainda não foi feito, mas que poderia. Já o ponto final, indica uma pausa absoluta. E o absoluto muitas vezes assusta.
Porém nossa gramática tem tantos sinais gráficos que nortearam meu caminho, e os quais hoje percebo transmitem uma sensação exata e mágica de muitos momentos vividos, e outros que ainda estão por vir.
O Ponto de exclamação, por exemplo. Segundo a hipótese mais provável, este sinal surgiu da junção de letras da palavra io ("exclamação de alegria", em latim). Escrevendo com o i em cima do o, formando aquilo que viria depois a ser o ponto de exclamação. Exclamações do tipo: Eu sou livre!!!
Ta...confesso que desde criança a interrogação esta muito mais contida em meus pensamentos, do que a exclamação para minha vida. Crises existências; acasos da vida; compreensão do ser humano; a energia; Deus; o sincretismo; egocentrismo e o amor; são alguns de muitos temas por mim abordados intimamente, não necessariamente a sós.
Porém chega uma determinada hora, em que você precisa parar de abrir parênteses em sua vida, e ser fiel ao que te leva soltar em alto e bom tom uma expressão terminada com um lindo e emocionante ponto de exclamação; que sua vida pode ser realçada com um belo par de "virgulas dobradas", e que para você poder colocar estas lindas aspas tem que lembrar que ela só faz sentido se vier a dois. Um é pouco, e sim, três é demais e mais que isso foge ao meu português e entra numa matéria que detesto: matemática, a ciência do raciocínio lógico ou abstrato. Tem coisa mais incoerente que isso? Uma lógica abstrata. Muito frio pra mim. Voltemos ao Português.
Sim, estou disposta a abrir um novo parágrafo em minha vida, e quem sabe até escrever um livro. Muitos já sugeriram. Porém para criar um esboço da próxima obra literária, ou apenas mais um conto, tive que acabar de ler aquele livro que não saia da minha cômoda, onde o final deveria ser escrito por quem o lesse. E era eu quem estava lendo.
Amo ler. Porém se começo um livro, e não o leio no máximo dentro de uma semana, pode ter certeza, não o indicarei a mais ninguém. Até tento retomar a leitura, algumas vezes aos trancos e barrancos consegui terminar, mas a crítica não era boa. Bom mesmo, é aquele livro que te prende horas a fio, e você não consegue largá-lo enquanto não acabar. Sim, este você indica, da de presente, ou até empresta, mas deixa o seu nome gravado, uma dedicatória ou uma marca pra ele voltar pra você, mesmo que o final não seja o esperado. Livros bons sempre têm finais emocionantes. O meu não poderá ser diferente. Por isso tive que ler aquele livro até o final e escrever o último capitulo. Eu o estava lendo e embora este livro fosse escrito não apenas por um autor e sim et alii, não pude negociar o final. Sugestões vieram, tentativas de negociações foram lançadas, porém o ultimo capitulo deste livro cabia a mim, apenas a mim. Tinha que ser fiel a meu gênero, e confesso o final não foi emocionante, porém não acabou com reticências e sim com um ponto final. Mas o que eu poderia esperar de um livro que demorei anos pra ler?


E que venha a Nova Gramática...(amo novas reticências...).

sábado, 11 de outubro de 2008

E viva a criatividade!!!

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.
Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.
O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.
Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica,ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo,resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da Universidade Federal de Pernambuco (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.

domingo, 21 de setembro de 2008

Autor(es) desconhecido(s).


Nós estavamos sentadas almoçando quando minha filha casualmente menciona que ela e seu marido estão pensando em "começar uma família":
-Nós estamos fazendo uma pesquisa, ela diz, meio de brincadeira. Você acha que eu deveria ter um bebê?
-Vai mudar a sua vida - eu digo cuidadosamente mantendo meu tom neutro.
-Eu sei. Nada de dormir até tarde nos finais de semana, nada de férias espontâneas.
Mas não foi nada disso que eu quis dizer. Eu olho para a minha filha, tentando decidir o que dizer a ela. Eu quero que ela saiba o que ela nunca vai aprender no curso de casais grávidos. Eu quero lhe dizer que as feridas físicas de dar à luz irão se curar, mas que se tornar mãe deixará uma ferida emocional tão exposta que ela estará para sempre vulnerável. Eu penso em alertá-la, que ela nunca mais vai ler um jornal sem se perguntar:"E se tivesse sido o MEU filho?"
Que cada acidente de avião, cada incêndio irá lhe assombrar. Que quando ela vir fotos de crianças morrendo de fome, ela se perguntará se algo poderia ser pior do que ver seu filho morrer. Olho para suas unhas impecáveis, seu terno estiloso e penso que não importa o quão sofisticada ela seja, se tornará mãe e irá reduzi-la ao nível primitivo da ursa que protege seu filhote. Que um grito urgente de "Mãe" fará com que ela derrube um suflê com sua melhor louça sem hesitar nem por um segundo.
Eu sinto que deveria avisá-la que não importa quantos anos ela investiu em sua carreira, ela será arrancada dos trilhos profissionais pela maternidade. Ela pode conseguir uma escolinha, mas um belo dia ela entrará numa importante reunião de negócios e pensará no cheiro do seu bebê. Ela vai ter que usar cada milímetro de sua disciplina para evitar sair correndo para casa, apenas para ter certeza de que o seu "bebê" está bem. Eu quero que a minha filha saiba que decisões do dia a dia não mais serão rotina. Que a decisão de um menino de 5 anos de ir ao banheiro masculino ao invés do feminino no Mcdonalds se tornará um enorme dilema. Que ali mesmo, em meio às bandejas barulhentas e crianças gritando, questões de independência e gênero serão pensadas contra a possibilidade de que um molestador de crianças possa estar observando no banheiro. Não importa o quão assertiva ela seja no escritório, ela se questionará constantemente como mãe. Olhando para minha atraente filha, eu quero assegurá-la de que o peso da gravidez ela perderá eventualmente, mas que ela jamais se sentirá a mesma sobre si mesma. Que a vida dela, hoje tão importante, será de menor valor quando ela tiver um filho. Que ela aprenderá a dar o verdadeiro valor a sua mãe. Saberá que uma noite tranquila não significa que foi dormida por inteiro. Que daria sua vida num segundo para salvar sua cria, mas que ela também começará a desejar por mais anos de vida, não para realizar seus próprios sonhos, mas para ver seus filhos realizarem os deles.
Eu quero que ela saiba que a cicatriz de uma cesárea ou estrias se tornarão medalhas de honra. O relacionamento de minha filha com seu marido irá mudar, mas não da forma como ela pensa. Eu queria que ela entendesse o quanto mais se pode amar um homem que tem cuidado ao passar talco num bebê ou que nunca hesita em brincar com seu filho. Eu acho que ela deveria saber que ela se apaixonará por ele novamente por razões que hoje ela acharia nada românticas, e que o contrário a tudo isso a faria pensar no porquê casará com esse homem.
Eu gostaria que minha filha pudesse perceber a conexão que ela sentirá com as mulheres que através da história tentaram acabar com as guerras, o preconceito e com os motoristas bêbados. Eu espero que ela possa entender porque eu posso pensar racionalmente sobre a maioria das coisas, mas que eu me torno temporariamente insana quando eu discuto a ameaça da guerra nuclear para o futuro de meus filhos. Eu quero descrever para minha filha a enorme emoção de ver seu filho aprender a andar de bicicleta. Eu quero mostrar a ela a gargalhada gostosa de um bebê que está tocando o pelo macio de um cachorro ou gato pela primeira vez. Eu quero que ela prove a alegria que é tão real que chega a doer.
O olhar de estranheza da minha filha me faz perceber que tenho lágrimas nos olhos
-Você jamais se arrependerá - digo finalmente.
Então estico minha mão sobre a mesa, aperto a mão da minha filha e faço uma prece silenciosa por ela, e por mim, e por todas as mulheres meramente mortais que encontraram em seu caminho este que é o mais maravilhoso dos chamados. Este presente abençoado de Deus que é ser Mãe.


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Quem somos nós?

Ano passado resolvi entrar de cabeça nessa história de quebra de paradigmas, e sabe o resultado disso tudo? Definitivamente isso não serve, sempre, pra mim. Mas como costumo argumentar, arranque disso o que te servir, e aproveite ao máximo para seu benefício.
O livro é bem bacana, uma leitura gostosa, nos leva a uma auto-avaliação se você estiver disposto a isso, diferente do filme, que é a meu ver é utópico demais. O livro foi escrito após o filme, contrariando a ordem natural das coisas. Ao final de cada capítulo, apresenta um número X de perguntas levando o leitor a refletir sobre seus próprios paradigmas. Perguntas como:

Existe o certo e o errado universal?
Quais são os dogmas da sua vida?
O que significa espiritualidade para você?
Você sabotou sua própria busca da verdade?
Que paradigma governa a sua realidade?
Você esta disposto a abandonar tudo o que se relaciona com o velho paradigma?
Qual a diferença entre a realidade e a sua percepção da realidade?
É possível mudar sua percepção da realidade sem mudar seu paradigma?
Você consegue ver qualquer coisa que exista fora do seu estado emocional?
Você esta disposto a experimentar o que esta além do conhecido?
A realidade continua a existir quando você não a esta observando?
Se os pensamentos podem afetar a estrutura molecular da água, o que seus pensamentos estão fazendo à sua realidade?
Quando foi a última vez que você teve um orgasmo em nível mais elevado?
Por que parece tão gostoso se sentir tão mal?
O que de pior pode acontecer se eu disser a verdade?
Você esta disposto a abrir mão de tudo em seu paradigma atual para realizar o seu deseja?
Isso é necessário?

Geralmente não nos fazemos grandes perguntas porque as respostas podem não ser o que desejamos, e isso nos assusta. Afinal, seria seguro sair dessa zona de conforto? Ao ler o livro, pude concluir que os paradigmas vão sempre existir, o que podemos fazer é mudar de paradigma, ou seja, novos olhos enxergando uma situação antiga. Parece simples, mas não é. Tente. Eu mesma tentei, e vou continuar tentando, mas dentro da "minha realidade", não estou disposta a passar por cima de certas coisas para obter o que desejo. O que tento fazer, é ter novas experiências, para construir uma nova realidade e perceber uma nova emoção. Isso também não é fácil, porque tenho um estoque de lembranças, emoções e associações dentro de mim que formam minha atual realidade. Mas já dei um grande passo. Não sinto mais culpa pelo que desejo, mesmo que meus desejos sejam contra meus paradigmas. Isso não quer dizer que me jogarei de cabeça a qualquer frio na barriga, mas se a trajetória completa de nossas vidas é gerada por nossas escolhas, escolhas estas que fazemos ou deixamos de fazer; para crescermos precisaríamos experimentar o que não é a primeira opção do nosso ego. Se continuarmos a experimentar a mesma emoção e nunca a aposentarmos, tornando-a sabedoria, não evoluiremos, e evoluir é a minha meta. Concordo portando que se desejo evoluir como pessoa, o sensato seria pegar uma limitação que tenho e agir conscientemente para alterá-la.A grande virada seria aceitar que sua vida e os acontecimentos nela são criação sua e conseqüentemente procurar o significado deles, em vez de pedir ao "universo" que prove o fato de você criar a realidade e assim poder ficar em cima do muro e aceitar ou rejeitar o que vier.

Thoreau


"Se você construiu castelos no ar, o seu trabalho não precisa estar perdido; é lá que eles devem ficar. Agora ponha os alicerces por baixo deles."

sábado, 6 de setembro de 2008

Fernando Pessoa, 1931.

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

domingo, 31 de agosto de 2008

Temos nosso próprio tempo!

Uma das coisas que mais me irritava era a seguinte colocação: "Você é forte. Deus dá a cada um a cruz que pode carregar, nem mais leve, nem mais pesada”.Isto me fazia sentir culpada, ficava imaginando que se não fosse tão forte como os outros diziam, talvez o Clau não teria morrido. Não me sentia forte, me sentia sozinha e sem ter prá onde correr. Não me via com opção alguma. Ele tinha morrido e eu estava viva. Apenas isso. Muitos comentavam: "Poxa, e ainda com uma filha recém nascida no colo”.Ela sim foi a minha força, nela tinha a minha opção. Vida e Morte. Passei por estas duas emoções sem o que considero um intervalo razoável. Talvez esse breve intervalo entre uma e outra tenha me deixado confusa quanto ao que sentir, ou ao quê sentir. Não chorei o quanto deveria, no tempo previsto pela "normalidade", nem tão pouco sorri as graças dos balbucios da minha pequena. Travei sim. Fiquei perdida dentro da minha cabeça. Não sabia como agir. Achei que ser racional seria o melhor a ser feito, e esqueci que no meu mundo a emoção sempre vence a razão. Não sei pedir ajuda, não sei pedir colo. Não chorei nos braços da família. Temia por me mostrar frágil e eles não saberem como agir. Chorava muito sim, mas escondida, sozinha. Brigava com Deus, mas ao mesmo tempo implorava por Seu colo seguro, afinal Ele não contaria a ninguém e eu não estaria vendo sua reação as minhas loucuras e indagações. Por ai se vê que eu nada tinha de forte, ao contrário, fui sim muito covarde, medrosa. Por medo, não pedi ajuda. Por medo, chorei sozinha. Por medo, sorria. Por medo, não dei colo. Por medo, era intocável. Não queria ter que voltar a ser aquela sandra de antes do Clau. Independente, auto-suficiente. Demorei em aceitar a felicidade, deixar alguém realmente entrar na minha vida e dividi-la com esta pessoa. Sabia o caminho que havia percorrido até ali, não tinha sido fácil. Não queria fazê-lo novamente. Um dos pensamentos que mais me assustava era o fato de ter apenas 27 anos e já ter vivido tudo que pensava querer para o resto da minha vida. Estava formada, exercendo minha profissão, tinha minha casa, minha filha, meu carro, havia sido casada, amada, amei e agora? O que vou fazer com o resto da minha vida? Tinha uma sensação de já ter tido tudo que queria e ainda tinha uma vida toda pela frente...mas o que mais posso querer? O que faria agora sem meus sonhos? Eu tenho sonhos? Estagnação. Essa foi a grande verdade. Eu estava em movimento, mas em total estagnação. Isso é possível? Na minha vida foi. Newton teria elaborado uma bela teoria com o meu estado de inércia. Me fechei por um longo tempo para o amor( eu escrevi isso no passado?). Amigos me alertavam. "Você trata sua filha como uma adulta. Ela tem apenas 3 anos”. Outra seqüela. Por medo da perda, estava educando a Maria Eduarda de modo que com apenas 3 anos trocava-se sozinha, arrumava seus brinquedos sem solicitação, e quando caia o máximo que ela ouvia era: "levanta, não foi nada”. Consegui reverter a tempo. Quando me deparei que mal dava colo a ela, tive que aprender a ser mãe, e não educadora. Meu primeiro novo sonho do resto de minha vida: ser mãe de alguém que já estava fora do meu ventre. E com o passar do tempo, novos sonhos foram surgindo. A Duda tem uma importante participação no despertar d'eles todos. Ela é uma linda sonhadora, A cada dia tem um sonho diferente, e conta sempre com a minha confirmação para a realização deles, me impossibilitando de viver constantemente em estado de inércia. Voltei a sonhar, ou quem sabe, comecei a sonhar. A morte de um, com o nascimento de outro, me possibilitou ter a certeza de que não estou sozinha e nunca vou ficar. Tenho meus sonhos aqui dentro de mim.


“A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace" - Victor Hugo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A Fragilidade da Vida Humana

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse Estio em Vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave, em doce agrado.

Se a nau, o Sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego mortal, e considera
Que és rosa, Primavera, Sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.

Francisco de Vasconcelos (1665-1723)

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Por todos os dias da...tua vida!


Mudança empilhada na casa da mãe, caminhão ia chegar as 9:00 da manhã, tinha acabado de sair do resguardo e aguardava ansiosa a sua volta. O telefone tocou...meu pai atendeu...começou a ficar nervoso, não conseguia entender e passou pra mim...
"Você conhece um Uno preto, com placa de Joinville, com um adesivo de uma empresa chamada Bumerangue? Tinha esse número de telefone no carro...”.
Se a voz no telefone não era dele me comunicando, sabia que algo estava errado...
"Liga pra polícia, eles podem te dar maiores informações”.
O tempo começou a passar mais lento depois desse telefonema...
“... olha... tinham três no carro, o que estava dirigindo, um loirinho esta bem, não aconteceu nada com ele. O maior de todos está a caminho do hospital, não sabemos se vai chegar vivo. Infelizmente o menorzinho morreu na hora”.
Desliguei...Desespero, ironia, sarcasmo, choro...Ridículo. Não acreditava, estava achando tudo simplesmente ridículo... O dia mais longo que vivi...Um caminhão no trevo de Irani fez com que esse domingo fosse o maior e mais estranho até então...
Domingo, 01 de julho de 2001. Cinco dias antes do meu aniversário, tínhamos planejado passar nossa primeira noite juntos após o resguardo comemorando com um jantar romântico no nosso apartamento. Deixaríamos a Maria Eduarda com meus pais, e pela primeira vez fiz ele prometer que não faria nenhuma surpresa... “Nada de festas surpresas... quero apenas nós dois... na nossa casa”.
Só conseguia pensar na nossa despedida, e pensamentos iam e vinham num descompasso acelerado...
"Ele viajou pra economizar oitenta reais...", “... ele não queria ir”, “... ele não escreveu no álbum da Duda...", “... eu pedi pra ele não ir”, “... dessa vez eu não pedi pro meu anjo da guarda acompanhar ele”, “... mania de não querer dormir no hotel depois do evento”, "A gente deveria ter feito amor antes d'ele viajar”, "O que eu faço? Vou buscar ele?”, "Ele não gosta de ficar sozinho. Ele deve estar com medo...", “... não fica com medo Vida... não fica”.
E foi assim por muito tempo, frases soltas surgiam numa seqüência que pra mim era lógica. Nos falamos na noite anterior, ele pediu pra eu ligar pra Dani ir vê-lo, minha amiga que foi nossa madrinha de casamento...Ironia do destino foi ela quem fez a pior parte...
Ele chegou a noite, primeiro me entregaram as alianças num envelope, cena mórbida que jamais esquecerei. Tínhamos duas, uma do casamento e uma que ele comprou no dia que completamos um ano de casados. Usávamos as duas...Tínhamos orgulho daquelas alianças...Desenhamos juntos...Quadrada, com um diamante...Tinha um significado especial. Marcava a verdadeira escolha pelo amor...diferente da aliança de noivado. A troca foi proposital.
Eu queria trocar a roupa dele, colocar um terno que ele amava, um par de meias que ele gostava muito, mas a Dani pediu muito no telefone pra eu não trocar. Quando o vi...ele estava lindo. Sim, um pouco inchado, mas suas mãos estavam quentes. Pedi pra Dani não deixar tirar uma barbichinha que ele tinha que eu adorava. Ela fez tudo perfeito. As mãos dele estavam tão lindas. Ele era muito vaidoso, ia semanalmente fazer as unhas. Naquela semana ( soube disso dias depois), ele tinha ido à Jane (a amiga cabeleireira) e havia dito que agora sim, tinha tudo que queria...o apartamento tinha ficado pronto, uma mulher que amava e a filha que sempre quis. Não lembro da minha filha naquele dia. Sei que tentei amamentar, mas ela (ou eu) não conseguia. Uma amiga fez isso por mim, cuidou dela com carinho e como ainda estava amamentando seus filhos, alimentou a minha também.
Lembro de pouca coisa desse dia. Tenho flashes. Lembro de algumas pessoas, outras não. Lembro de algumas cenas, outras não. Mas a cena que mais marcou, foi na hora de carregarem o caixão (não queria escrever essa palavra, não gosto. Pesada, mas não achei outra.). Tinha muita gente naquele local, isso estava me deixando agoniada porque sabia que eram poucos que estavam ali que realmente gostavam dele. A grande maioria estava ali por minha causa, isso me incomodava. Por favor, não me entendam mal, naquele momento tinha uma guerra dentro de mim, mas quando olhei as pessoas que o seguraram, que carregaram o Claudinei nos últimos momentos, fiquei em paz...Cada alça estava com alguém que o amava também. Cada um segurava uma lembrança do verdadeiro Claudinei. Cada lado era composto por pessoas que o conheciam como eu o conheci. Cada passo difícil e pesado foi revezado por amigos que quebraram a barreira que poucos conseguiram. Foi difícil deixar ele ir. Ele não gostava de silêncio, de ficar sozinho. Era materialista, e eu como espiritualista fiquei triste por saber do seu sofrimento, por ter que deixá-lo ir sozinho. É engraçado escrever isso: "por ter que deixá-lo", afinal quem deixou quem? Ele que partiu, ou fui eu que fiquei? Foi a vida dele que acabou, ou foi a minha vida que modificou? Foram os sonhos dele que foram sepultados, ou os meus que tive que deixar serem lacrados? Demorei pra entender, demorei pra sentir, demorei pra seguir...Demorei pra aceitar que o "por todos os dias da nossa vida" não era pra sempre.


Essa foto foi tirada no último evento que o Claudiney (com Y porque ele queria) realizou, na cidade de Chapecó. Horas depois, ao término do evento, voltando pra casa, parou num posto porque estava cansado. Passou a direção para o amigo, pois não queria dormir ao volante. Dez minutos depois, passaram direto pelo trevo de Irani. Eles não tinham a preferência. Um caminhão bateu na lateral do carro, do lado do passageiro, onde provavelmente o Clau dormia com a cabeça encostada na janela, como de costume. Ele morreu na hora, e graças a Deus foi o único. O "menorzinho" de todos virou uma luz e um exemplo em minha vida, e como cantou o poeta, e fiz questão de colocar na lápide..."Nada vai conseguir mudar o que ficou".